Para comprar, não decida pelo preço, decida pelo custo e pelo valor das coisas

7 agosto 2008 | Por Elmer Ponte | Seção: Consumo Inteligente

O preço é geralmente um dado decisivo na hora de se adquirir algo. É um número que fixamos na mente e que serve de comparação com outras alternativas a nosso dispor. No entanto, mesmo para produtos e serviços semelhantes, uma decisão baseada exclusivamente no preço nem sempre é a mais vantajosa do ponto de vista financeiro, pois podemos ter outras despesas para utilizar o que compramos – o que pode tornar uma opção que parecia vantajosa numa escolha desvantajosa.

Lembro-me da aquisição de uma máquina copiadora para meu escritório em que minha funcionária escolheu um modelo que nos satisfazia muito bem, com preço surpreendentemente baixo. Mas, ao verificar o custo mensal da assistência técnica (que era indispensável) e fazer uma projeçã£o dos insumos necessários ao funcionamento da máquina, concluí que havia outras opções melhores e, em longo prazo, muito mais baratas.

Esse exemplo se aplica a muitas situações, até porque hoje adquirimos cada vez mais serviços no lugar de simples produtos físicos. E dentre os custos mais comuns que temos de assumir estão taxas de administração, assistência técnica, insumos, seguros e impostos. Em alguns casos, como copiadoras e impressoras de computador, os custos dos insumos podem ser tão elevados, que têm mais importância que o preço de aquisição.

Alguns consultores financeiros preferem considerar bens de alto custo de manutenção e baixa liquidez como passivos e não como ativos – até porque são bens que têm uma tendência a se depreciar ao invés de se valorizar. O raciocí­nio é que esses bens são centros de custo e não de receita, além de serem difí­ceis de vender na hora em que o proprietário deseja se ver livre deles. Quem tem um barco de lazer de luxo, por exemplo, tem que pagar pessoal especializado de manutenção e alugar espaço numa marina para guardá-lo. Até imóveis podem se enquadrar nessa categoria. Dois exemplos: uma casa de veraneio que exige empregados permanentes e um flat que tem taxa de condomínio e impostos muito elevados.

Além de não incluir os custos que incidem ao longo do tempo, o preço de um bem ou de um produto pode não refletir o verdadeiro custo de aquisição. A compra de um imóvel implica em custos adicionais de transmissão, registro e impostos. Um automóvel, além do preço de tabela, pode exigir o pagamento do frete, do licenciamento e de eventuais acessários não incluí­dos no modelo original. Até uma simples compra feita pela internet exige que se inclua o valor do frete se desejamos compará-la com o preço da loja.

Depois de contabilizar todos os custos envolvidos, ainda resta um exercí­cio que vai nos ajudar a decidir sobre uma compra importante. Trata-se de refletir sobre o proveito que vamos tirar do nosso investimento. Nada que se mantenha ocioso, sem utilização, pode ser considerado barato, mesmo que seu preç§o tenha sido baixo. E devemos fugir de coisas que utilizamos pouco mas têm um custo fixo de manutenção elevado. Por outro lado, uma coisa que nos traz prazer, conforto ou realização pode ser altamente compensadora, mesmo que tenha preço elevado – desde, é claro, que tenhamos condições de pagá-la. É a famosa relação custo/benefí­cio, que nos diz quanto estamos nos beneficiando em relação ao que estamos pagando. Essa é a maneira mais inteligente de utilizar nossos recursos, principalmente se forem escassos ou se tiverem sido ganhos com muito trabalho.

Tudo isso parece claro, até óbvio, e você deve estar se perguntando exatamente onde eu quero chegar. A questã é que somos frequentemente traí­dos pelas emoções ao tomar decisões financeiras. Podemos esquecer o custo das coisas para tornar mais atraente e justificar (para nós mesmos) uma compra que tanto desejamos fazer. E os vendedores trabalham esse viés emocional, não se preocupando em esclarecer todos os custos envolvidos.

Os vendedores de time-shares (utilização compartilhada de hotéis e resorts), por exemplo, se concentram em demonstrar o conforto e a beleza das propriedades de lazer que vendem, não salientando os custos de manutenção que deverã£o ser pagos pelo comprador ano após ano. No entanto, o conhecimento da taxa anual de manutenção é indispensável para que o comprador verifique se essa despesa cabe de fato em seu orçamento e, também, para que ele compare esse valor com os custos de hospedagem em resorts comuns, escolhendo assim a melhor alternativa. Essa é a forma correta de decidir, e não simplesmente pelas belezas do local, até porque existem muitos lugares bonitos no mundo. Uma pessoa que viaja de férias todos os anos hospedando-se em hotéis de luxo poderia adquirir um time-share e economizar diárias de hotel. A mesma opção não faria sentido para outra pessoa, que viaja menos ou se hospeda em hotéis mais simples.

Em resumo, somente a consideração de todos os custos e benefí­cios envolvidos pode nos dizer, com todas as letras, se podemos e devemos pagar de fato por algo que nos atraiu. E se o que parecia simples no iní­cio desse artigo parece agora um pouco mais trabalhoso, não se preocupe. O importante é criar uma postura menos emocional e impulsiva – e mais crí­tica – diante de tantos apelos e tentações a que somos expostos. A própria leitura desse artigo já deve servir como um alerta e uma reflexão. É um preço muito pequeno a pagar, pois conheço muitas pessoas que fizeram compras importantes sem a devida consideraçã£o dos custos e, por isso, desarrumaram sua vida financeira e depois sua própria vida emocional. Afinal, você não vai querer ter duas alegrias – a da hora de comprar e a da hora de se ver livre do que comprou. Nem você merece tanta alegria assim!

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