65. Como é bom o anonimato da cidade grande!

28 maio 2009 | Por Elmer Ponte | Seção: Um Minuto pra Vida Toda

Clarissa acordara sozinha depois de uma longa sesta – seu marido tinha viajado e a empregada estava de folga. Clarissa sentia-se muito sensual. Afinal iria aproveitar essa oportunidade de ouro para se encontrar com Raul, seu novo amante.

Ela fez um lanche e resolveu acessar a internet para ver uns lindos modelos de lingerie sexy, que desejava comprar. Ao fazê-lo, o IP de seu computador, o número que o identifica, ficou gravado nas máquinas que hospedavam os sites que ela visitou. Por outro lado, esses sites aproveitaram a conexão para colocar cookies no laptop dela, arquivos que identificavam as páginas visitadas – o que serviria para facilitar a navegação quando ela voltasse a acessá-las.

Em seguida, Clarissa telefonou ao banco para tirar algumas dúvidas sobre sua conta e seu cartão de crédito. Esse telefonema foi gravado.

Mais tarde, já vestida com capricho, ela colocou grandes óculos escuros que a fariam sentir-se mais protegida, escondendo seu semblante. Depois, ligou o GPS para encontrar mais facilmente o endereço de Raul e tirou o carro do marido da garagem. A partir daí, o GPS não só a ajudaria a chegar ao apartamento de Raul como também deixaria gravado todo o seu percurso.

Como estava ansiosa e tinha pressa de chegar, ela ultrapassou a velocidade permitida. O carro foi fotografado por dois radares de trânsito instalados no percurso que ela fazia. As multas, com as fotos e os registros do local e da hora das infrações, seriam recebidas em sua casa.

Já próxima do destino, ela desceu rapidamente numa delicatessen e comprou uma garrafa de vinho, pagando com cartão de crédito. Os dados da transação foram registrados on line e ficariam guardados no sistema da administradora do cartão, servindo para identificar seus hábitos de consumo. A transação viria na fatura, que também ia para sua casa.

Em seguida, Clarissa telefonou para Raul, avisando-o que estava chegando e mandando-lhe um beijo. O número de seu celular ficou gravado no de Raul, e o número de Raul, no dela – com a hora precisa da ligação.

Ao entrar no prédio do amante, ela foi filmada pelas câmeras de segurança do hall e do elevador. A câmera do elevador flagrou o momento em que ela se olhava no espelho enquanto arrumava o sutiã por baixo da blusa.

Raul, por alguma razão misteriosa, não se contentava apenas em ter Clarissa, a funcionária mais bonita do escritório. Tinha também que mostrar sua conquista aos colegas de trabalho. Já no quarto, enquanto ela tirava a roupa, ele a fotografou disfarçadamente com seu celular, sem precisar abri-lo.

Em seguida, Clarissa se jogou na cama e comentou em tom leve: Adoro o anonimato da cidade grande. Ninguém me viu, ninguém sabe que estou aqui, ninguém nunca saberá!

5 Comentários
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  1. Parabéns pela excelente mensagem. Obrigado pela grande utilidade pública do conteúdo que precisa ser amplamente divulgado para despertar as consciências.

  2. A Integração das Tecnologias de informação, seguida praticidade das interfaces modernas, ou seja, TI globalizada, facilitam a vida de usuários, e ao mesmo tempo os enforcam tomando a liberdade e tornando o tempo e o espaço (antes suficientes para levantarmos a bandeira da liberdade), meros registros nesse imenso banco de dados “confidencial”.

  3. Isso é um bom roteiro Elmer. Voce já pensou em fazer cinema?

  4. É, camarada Winston, talvez o olho do Grande Irmão ainda estivesse sobre Clarissa se ela decidisse dar uma voltinha no shopping após se encontrar com seu amante. Lá, poderia ter sido vigiada pelas câmeras do estacionamento, dos corredores e do interior das lojas; quem sabe até no banheiro. Talvez uma equipe da tevê estivesse fazendo um link ao vivo na porta do shopping e Clarissa aparecesse, sem querer, em rede nacional. Enquanto voltasse para casa, seu carro teria sido vigiado pelas câmeras da polícia, que estão sobre os postes das principais ruas e cruzamentos da cidade…

    Será que chegaremos a um ponto em que privacidade será apenas um vago conceito do passado?

  5. A tecnologia é inimiga da privacidade. É atrativa ao facilitar transações sem deslocamento, pagamentos sem papel moeda, melhor caminho, comunicação móvel; poupar tempo, energia, stress; oportunizar consumos de toda sorte; impelir costumes que relegam a moral e a ética; abandonar valores que alicerçam a família e, sobretudo, descontruir pessoas descuidadas do ser e alimentar o prazer por prazer.

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